domingo, 15 de setembro de 2013

Um novo espaço para a cultura

Durante um tempo adiei a minha decisão de ter uma coluna semanal nesse jornal, pois faz alguns anos que deixei de lado minha veia de jornalista – embora não formado – para me dedicar mais intensamente ao teatro e ao magistério. Confesso que muita coisa mudou nesses anos, e o jornal que se faz hoje está muito à frente daquele que fiz até o início desse novo milênio, principalmente no tocante à política e à cultura. Sobre política pretendo não falar, embora todo ato de escrita é um ato político, pois incide sobre ele pensamentos, idéias e ideologias. Sobre cultura, arte, lazer e entretenimento, procurarei dar algumas pinceladas, principalmente porque temos bons equipamentos e manifestações artísticas na Região do Caparaó e nem sempre sabemos lhes dar o valor que merecem.
Moramos numa região rica em belezas naturais, de grandes talentos brotados de suas serras quer sejam na música, no teatro, nas artes plásticas ou na dança; haja vista a exportação de artistas para o Rio de Janeiro, São Paulo, Minas Gerais e Santa Catarina, e que brevemente poderão estampar as páginas de cadernos de cultura de grandes centros. E que surjam outros Ronilsons, Amandas, Nices e Joões em nosso celeiro cultural.
Mas nos concentremos aqui, agora... Este ano não tivemos o Festival de Música de Alegre, todavia tivemos em agosto o Festival Nacional de Teatro de Guaçuí, que pela repercussão nas redes sociais foi um grande sucesso. Entre atores estritamente de teatro, tivemos nomes televisivos como David Lucas (Orelha, de Malhação) e o ex-big brother, o capixaba Marcos. No entanto, já é passado e a organização já começa pensar em 2014.
Setembro está aí, trazendo a primavera, a festa das cidades de Dores do Rio Preto e de Guaçuí para entreter seus moradores. Também teremos importantes circulações culturais, como acontece hoje no Teatro Fernando Torres, às 20 horas, com o recital poético “Meus poetas... Minha Ilha”, com o ator Markus Konká, dentro de uma parceria com a Secretaria de Estado da Cultura – Secult-ES e com a Prefeitura de Guaçuí, com entrada franca. É um bom momento para os que supostamente amam a cultura, saírem de suas confortáveis cadeiras frente às tevês e prestigiar uma integração de literatura, teatro e música. Uma boa pedida também para professores e alunos, visto que conhecerão um pouco mais da literatura capixaba.

Por essa semana é só. Espero que curtam a coluna, compartilhem as informações, discutam e também deem sugestões. É mais um espaço que se abre para a divulgação de nossa cultura.

(Coluna semanal  "Cena Aberta" no Jornal Folha do Caparaó, aos sábados)

segunda-feira, 9 de setembro de 2013

Cortina Aberta

Tudo perdeu o sentido...
O figurino exposto na arara
O som saindo do aparelho
O foco marcando a cena.

Tudo perdeu a razão de ser...
O adesivo no chão marcando o palco
A cortina aberta esperando o ator.
A deixa do texto para a ação.

Tudo ganhou outra forma
Como a maquiagem aberta na pia
A luz do espelho ainda acesa
O cenário exposto ao léu.

Tudo tem outra razão de ser
Quando o eu é mais forte que o nós
Quando a vaidade supera o coletivo
Quando o pessoal vai além de um todo.

Quando o que faço mais importante
Quando o que fiz não interessa mais
Quando a arrogância minha ou sua
Destrói sonho que não satisfaz.

Sou eu na ponta de uma escada
Na escala de marionetes com elásticos
E as máscaras caem, sobressaem
A representar personagens de justiceiros.

Ou heróis e heroínas de lanças nas mãos
A punir os vilões, bandidos e troladores
Com seus pudores e verdades
Sem olhar o espelho das próprias mãos.

quinta-feira, 5 de setembro de 2013

SONETO DA VIDA


Compreender o vazio que no peito acolhe
Que tolhe os sonhos mais profundos
E fere a alma que vagueia pelos caminhos
Em busca de retirar os espinhos da dor.

Não entender que mãos estendidas
Saem feridas no trabalho e nas paixões
E transformam corações  até então aquecidos
Em adormecidos cubos de gelo pela ingratidão.

Perceber que o limite nos faz tão pequenos
E carentes de sermos amenos, como um barco
A seguir pelo lago, em busca de paz.

Fortalecer nossas entranhas tão estranhas
Para que nossas façanhas, mesmo que tão simples

Sejam revigoradas pelas nossas criações.

sábado, 6 de julho de 2013

Gaia

A tarde se finda dourada
No horizonte contínuo.
Águas plácidas, caminheiras,
Regadas pelas vinhas de um porto.

Aves, céu, pontes, morros...
Povo sorridente, acolhedor.
A recitar poesias, sonhadoras,
Cantigas de amor-amigo,
Nunca de mal dizer.

Não sei que se passa em meu coração.
Talvez seja reflexo do voo de pássaros,
Belas gaivotas,
No céu azul profundo,
Nesse Douro a provocar tantas emoções.

Talvez a deusa Gaia,
Protetora mitológica da Terra,
E denominação desta cidade,
Mexa com meus sentimentos
E estremeça minha razão.
E como um ébrio,
Devido a tantos tragos de vinho,

Vou seguindo o que meus olhos veem

quarta-feira, 13 de março de 2013

TEMPO DE POESIA


                                                                    À professora Ivanete da Silva Glória Dalmácio


Houve um tempo em que se falava das flores
Falava-se da lua prateada a enfeitar o céu
Falava-se do mel dos olhos da doce menina
Falava-se da manhã raiada que pensava perdida.

Houve um tempo de corações brandos e ternos
De homens de mãos estendidas, fraternos.
De beijos roubados num portão
E a matéria das matérias eram sentimentos.

Houve um tempo em que da ilusão se fazia versos
Que não se era escravo do tempo e da hipocrisia
Que mesmo de dia, estrelas pipocavam no ar
Em busca da criação, da composição, do sonhar.

Houve um em tempo que da chuva sonetos brotavam
Que trovadores enfeitavam a rua com acordes
Enquanto olhares cruzavam as esquinas
À procura de suas musas, elegantes senhoras.

Houve e há um tempo que é permitido extrair do presente
A matéria que nos faz sensíveis e ao mesmo tempo fortes
Para compor uma obra – mesmo que não seja prima –
Mas que prima por nos encantar sendo poesia.

Houve e há um tempo, que mesmo moderno,
Tem garimpeiros das emoções – por isso – poetas.

14 de março – Dia da Poesia

domingo, 6 de janeiro de 2013

Poesia




Doce poesia
que embala o corpo
e o meu pensamento.
Que transforma o momento
numa melodia.
Que encanta os olhos
que leva a vida
numa magia.
Doce poesia...
São dores,
São alegrias,
são dias de solidão
tornando-se canção,
transmitindo harmonia.
Doce poesia
dos calos da enxada
aos olhos da deusa,
das mãos do mendigo
aos beijos de amor.
São momentos...
é o calor do homem.
Doce poesia
que me embala
nos momentos
que os olhos choram
mas também sorriem.

terça-feira, 11 de dezembro de 2012

ANTES DO FIM DO MUNDO


A vida nos oferece a possibilidade de realizar muitos sonhos. Alguns possíveis e outros nem tanto. E a poucos dias do fim do mundo, peso na minha balança o que fiz e o que deixei de fazer para que esses sonhos se realizassem.
O sonho de constituir uma família foi concretizado. Esposa, casal de filhos, uma boa casa, um carro, e um cachorro... vira-lata, na verdade, mas defendeu meu lar por mais de dez anos. Segundo seu veterinário, um street-dog, já que lhe faltava uma raça específica. A profissão também foi importante, não fui jornalista de graduação, mas exerci a profissão durante anos. E naquela época, nos anos 80/90, a profissão estava em alta.
Não consegui ser cantor, dançarino ou atleta. No entanto tinha vontade de ser artista – virei ator, diretor e autor de teatro. E com isso, pude viajar por muitos lugares e assim concretizei outros sonhos de conhecer determinadas cidades do país, pelo menos algumas capitais, até mais distantes como Belém do Pará.
Como pisciano, adoro o mar e cachoeiras. A praia me fascina, as ondas, a areia, a preguiça de manhã debaixo da sombrinha, a cerveja, o picolé e o bate-papo com os amigos nos verões de Itaipava, em Itapemirim. As cachoeiras, bem essas ficaram no tempo de adolescência, quando me refugiava no interior das fazendas que circundam Guaçuí.  Paisagens bucólicas que procurava pedalando minha “magrela”, assim chamavam as bikes da época.
Mas o que posso fazer ainda a pouco tempo do fim do mundo? Há sonhos que se tornam complicados de serem vividos devido a inúmeros contratempos de ordem financeira e profissional. No entanto, como o mundo vai mesmo se acabar e não vou voltar para sala de aula e nem para os serviços do teatro, então seria o momento de conhecer a Grécia – para desvendar os segredos da esfinge – ou visitar às terras de meus bisavós italianos, a Ilha de Sardenha, na Itália. A história e a mitologia exercem em mim um grande fascínio. E levaria comigo minha família, pois compartilham comigo também esse desejo.
Antes, despediria dos amigos, dos colegas de trabalho, e de todos familiares – mais de quatro dezenas, que quando se reúnem numa confraternização de aniversário, parece mais uma grande festa. E diria para eles: foi muito bom ter compartilhado tanto momentos maravilhosos, e se o mundo não acabasse agora, faríamos mais festas, afinal tem semana com três ou mais que é difícil conciliar agenda.
Como disse, sou de peixes e adoro mitologia. E o que uma coisa tem a ver com outra? Nada. Mesmo sendo de peixes, nunca fui bom em águas. Que Netuno me perdoe. Prefiro o ar. Dessa forma, no meu último dia no mundo subiria a uma grande montanha, de frente para o mar, e voaria de asa delta, lembrando Ícaro, o mitológico personagem. Então, pousaria numa praia deserta e assistiria, ao lado da minha família, ao por do sol e o desaparecer do mundo neste 2012, se possível ouvindo Bolero de Ravel, plagiando a Casa Puebla, no Uruguai.
(Carlos Ola)