quarta-feira, 3 de abril de 2024

MIRAGEM



Não esperava por você naquele momento!

Era apenas um café num dia cinzento

Que datava o cansaço do fim dia

E a falta de perspectiva da magia de um encontro qualquer.

Não esperava você surgir e me olhar,

Tocar em algo que talvez tivesse esquecido;

Arrancar das entranhas o meu medo

E deixar que eu revelasse os meus desejos mais secretos.

Não esperava você naquele sorriso aberto...

Tão próximo e cada vez mais perto

A tocar meu corpo tão incerto, tão fechado, tão coberto.

Não esperava de você o carinho sutil nem o jeito ardente

Que dobrou meu corpo tão somente

E que sedento fiz de ti o meu assento.

Não esperava... Nem podia... 

Melhor assim, como uma miragem que em dunas talvez eu veria.

segunda-feira, 12 de setembro de 2022

CRÔNICA DE UMA VIAGEM AO MORRO DE SÃO PAULO

 


O que esperar de um feriado no meio de semana, aliás dois para quem é da “Vitorinha” capixaba? A gente fala que não vai viajar mais de ônibus em viagem longa, mas para nosso desespero abre uma propaganda no instagram e lá vamos para uma aventura em Morro de São Paulo, de quase 20 horas.

E se é de excursão, pode esperar tretas e se não as tem, não tem graça.  E a primeira vem de pressa, pois no embarque já tem passageira reclamando que as poltronas não são leitos, e que a mesma esperava leito total. Conversa vem, conversa vai... E o jeito é subir para a parte de cima. Resignou-se ela, porém ia buscar seus direitos.

Assentados os passageiros, partiu o ônibus com sua diversidade. Depósito de bebida lotado, mas com as garrafas ainda à espera da temperatura ideal, o que não impediu a depois escassez da cerveja até o final do trajeto. E havia os kits lanches, em que uma sacola não teve um fatídico bolo, objeto de reclamações da galera do fundão, da famosa cozinha. E esta já entoava dois cantos: o nome do guia (transformado em aeromoço) e um improvisado coral ou karaokê. Para uns, forma de passar o tempo, para outros nem tanto.



Falando no guia, bom sujeito e fazendo de tudo para que a viagem fosse agradável, ele teve seus imprevistos com o ônibus quase novo. Microfone que não estava cem porcento, televisões sem aparelho de DVD para os filmes previstos... E nisso não assistimos aos clássicos tão aguardados, entre eles A Cabana.

A chuva caindo lá fora; o silêncio reinando depois da primeira parada; e as idas ao banheiro (sem pulseira vip) devido às cervejas e ao tempo sentados nas poltronas. E depois de longas horas, enfim Valência e a junção do rio com o mar no atracadouro. Um sol tímido se anunciava no céu e já era festejado.

O barco deslizava nas águas mostrando a bela paisagem: a ilha e o farol, ao som do axé. A capitã do barco esbanjava a simpatia e a energia típicas da Bahia. E para quem fizesse o passeio do dia seguinte com ela, ganharia salada de fruta. A maioria do grupo, com passeio agendado tentou até mudar os planos, o que virou uma pequena treta com a outra operadora. Por fim, ao fim daquela mesma noite, tudo se resolveria com apenas alguns no passeio, sem a capitã, em outro barco, e sem a salada de fruta.



A chegada na ilha foi da burocracia da entrada ao deslumbre da pequena vila cheia de lojas e restaurantes e sua paisagem natural de grande beleza. O cansaço da viagem já ia ficando para trás.

Na pousada a realidade dos degraus, principalmente para os idosos do grupo. Há quem não gostou, há os que ignoraram e havia aqueles que estavam ali para aproveitar, afinal o tempo prometia com a chegada do sol e o show de “É o tchan”. E o guia ficava na loucura de atender os pedidos pelo grupo do zap. A chuva retornou e cada um foi buscando o que fazer entre os bares abertos e com música aí vivo.


Noutro dia:  café da manhã e passeios. Fotos pipocaram nos grupos com os aventureiros em seus passeios em barcos, caminhadas, praias, 4x4, bares... Cada qual sua maneira. O banho de argila, o banco de areia, os bares e restaurantes renderam as poses individuais e em grupos das mais inusitadas, pois afinal havia sol. O que sucedeu nos outros dias nas lanchas, nas charretes, nas piscinas naturais.

Para quem foi ao show a dura realidade perceber que nossos ídolos envelhecem e que o nosso joelho não acompanha nossa idade mental. E o pobre coitado (ou coitada) entrega o jogo ao dançar até o chão, e quase não conseguir subir. E teve ainda paqueras, ficadas, e a volta de barco táxi com tudo balançando, inclusive o quarto depois na pousada.

E para quem não sabe, tem praia com cupido, e que é preciso tirar os óculos para ver o amor se sua vida; com o perigo de morar naquele lugar e virar empreendedora de cocada. Ainda bem que a pessoa olhou para o mar, disse... Esse era o amor de todos, todos naquele momento, mas queria uma volta de moto com o pretendente.

E os breves dias foram passando, com cantoria improvisada debaixo das grandes sombrinhas, com cervejinhas e boas conversas em que a neurociência acabou por revelar um cantor; novas amizades; tentativas de descer a tirolesa, pôr do sol incrível, peixinhos atraídos pela cerveja; enfim o paraíso era ali.


Mas tudo o que é bom tem o seu desfecho. Fim das diárias, hora de voltar para a casa; e os carregadores das malas à espera. E saem correndo pelas ruas estreitas na manhã de domingo. Os viajantes chegam ao cais e barco já a esperar. E novas tretas surgem, pois uma mala danificou-se, estresse... De quem é a culpa/responsabilidade... Chama o guia! E para piorar ou tornar a viagem ainda mais inesquecível, algumas malas não chegam, e quase iam para barco errado. Tensão, atraso, suspense...  Chama o Guia!  Decidida a questão, todos atravessam o encontro do mar e o rio, e vão em busca de suas vidas fora daquele paraíso, já a começar pelo ônibus, as filas do restaurante e o seu trabalho no solo espírito-santense, expressão verdadeira e esquecida dos que nascem no Espírito Santo, afinal antigamente só quem nascia em Vitória, segundo a gramática da língua portuguesa, era capixaba. Mas o mundo e as letras mudam, o que não muda é possibilidade de fazer novas e grandes amizades numa excursão.


segunda-feira, 25 de abril de 2022

Sobre ontem

 

Há muito ele não sentia aquele aperto no coração

Aquela vontade de estar ao lado de alguém

Como naquele momento sentira.

Há muito não sentia no estômago aquele frio

E nem as mãos suando, deixando-o perdido.

Bastou olhar aquele olhar da cor da jabuticaba


Que que suas pernas tremeram

E sentiu o chão faltar-lhe aos seus pés.

Há muito não observava um sorriso tão branco e franco

Puxando para si o desejo do beijo

Como ondas atraindo-o para o mar.

(Ele sempre tivera medo das ondas fortes do mar)

Ao mesmo tempo tão próximos e tão distantes

Procurava ele em fugazes instantes

Aquecer seu coração com pequenos toques

Tão repletos de doçura e sentimento fraterno.

Sua mente girava... seu olhar o procurava...

Não sabia o que era aquilo nem para onde ia.

Talvez nem precisasse saber, apenas vivia!

Vivia aquele doce momento que se transformava

E que horas depois talvez esvaísse em sua visão.

Sem o abraço e o beijo e tão esperado

Foi assim, em carpe diem, que a distância se fez

E o coração ficou entrelaçado.

quinta-feira, 24 de fevereiro de 2022

UMA ILHA




Ando pelas ruas

Procuro sons, luzes

Injeto no meu corpo

Cores e sabores

Para ofuscar teu brilho.

 

Me ilho...

Mas sou rodeado de tua presença

Amiga, embora fria,

Vadia e tão longe

De mim..

quinta-feira, 20 de agosto de 2020

INABILITADO

 

Tem dias que o sol parece se esconder entre as nuvens

E uma enxurrada toma conta de nossos caminhos.

Aquilo que acreditamos ser nosso destino

Transporta-se para o desatino de desencontros.

Tem dias que os sonhos não se concretizam

Por mais que lutemos e os coloquemos como prioritários;

Por mais que invoquemos todos os nossos esforços.

Tem dias que acreditamos na nossa competência, nas pessoas;

Acreditamos que somos insuperáveis, infalíveis...

E a vida nos dá rasteira, te prova o contrário

E a toalha saída do armário está pronta para ser jogada.

Tem dias que percebe que não é super herói, nem salvador do mundo.

Não é insubstituível, nem dono da verdade.

Que você se cobra muito, quer perfeição...

E percebe que tudo, se não acontece, é mera ilusão.

Tem dias que não contam sua experiência, sua visão.

Que seus projetos, embora longevos, são efêmeros,

Basta um deslize e tudo para, se perde, se inabilita

E você grita, urra, mas ninguém escuta... só você, no seu silêncio.

segunda-feira, 4 de maio de 2020

A guera invisível


O medo chegou!  Fecharam-se as portas! Abriram-se janelas!
Palcos vazios...
Artistas ilhados, isolados, parados!
Telas virtuais. Lives!
Distanciamento, isolamento, confinamento...
Quantas mortes, meu Deus!!! Choram os filhos da pátria mãe gentil.
Mortandade... em qualquer idade!
Ocupação, lotação, superlotação!
Caos em mutação! Omissão!!!
Indignação... indignada... nação em abandono
Órfã...
Com máscara.
Sol... solidariedade... dignidade
Sonoridade de panelas que batem em protestos
E palmas aos que estão em avant gardem.
Parar... parado... ficar... ficar em casa
Para achatar a curva
E não derrapar com o carro
Descendo a ladeira abaixo
Proteção, proteger, evitar!
Não à multidão!
Mas quanta gente sem razão!
Loc down!!! Down em mim!
No meio do choro de uma multidão
No meio da praça,
Para a sua claque de riso frouxo
Sem máscara, Um insano grita!
E daí?

sexta-feira, 1 de maio de 2020

HORA ÚNICA



...
O manto escuro da noite
Cobre de silêncio a cidade.
Lá longe uma luz me seduz
Faz com que eu caminhe
Por trilhos nunca imaginados.
Vou só, procurando-te ao longe!
Quero encontrar-te neste silêncio,
Nesta hora única de solidão e dor.
A luz se aproxima de meus olhos;
Uma neblina a envolve
Tornando-se uma nuvem cor de rosa.
Um ser, de braços abertos,
Avisto à distância,
Mas a nuvem o envolve lentamente...
Continuo seguindo sozinho.
Agora estou mais próximo do que nunca:
Sei que vou encontrar-te
E poderei roubar-te beijos.
Sim, esta luz está neste instante em mim.
Estou envolvido pelo teu perfume
Pelo teu amor...


terça-feira, 31 de março de 2020

O silêncio das palavras



Todo o meu corpo anseia
E procura por ti.
Quero-te na ânsia louca
De nossos abraços
Marcar mais um compasso
De nossos beijos
Formando um canção.

Quero o silêncio das palavras,
Nossa cama molhada
Revelando exaustão.

Quero o chão, a poeira,
Nossos corpos na esteira
Ou quem sabe em combustão.

E no vai e vem de nossos corpos
Descobrir que a cada dia
Quero e posso
Amar-te sempre mais
Envolvendo-te, oh, poesia!

terça-feira, 7 de agosto de 2018

Se eu pudesse...







Se eu pudesse, te sequestrava
Te levava para um lugar distante
E passearíamos de mãos dadas pelo campo
Vendo as estrelas no céu...
Se eu pudesse, te seguraria pelas mãos
Te tocaria com o silêncio do meu coração
E da tua boca roubava um beijo
Na comunhão mais perfeita  sentida pelos meus lábios.
Seu eu pudesse, levaria comigo esse teu sorriso
Teu olhar menino, jeito travesso
Tua pele de cor da lua
Tua beleza tão nua, para perto de mim.
Se eu pudesse...

sexta-feira, 6 de outubro de 2017

O outro dia


A noite se dissolveu com os primeiros raios.

O corpo ao lado, exaurido pelo prazer,

Desperta sonolento no lençol sobre o colchão.

A doce ilusão que o encontro se repetiria

Foi-se no decorrer do dia,

Na estrada que se perdia no campo da visão.

Tomou o vazio como o seu alento

Pois dentro de si, sabia,

Que daquela boca tão cedo não ouviria

Palavras quentes de amor.

Com o tempo se acostumou

A não ter consigo aquela imagem

Do sorriso-meninice, perdido no quarto,

Atrelado a outro corpo, exalando paixão.

sexta-feira, 3 de outubro de 2014

DA FUGACIDADE DO MOMENTO

Há pessoas que surgem em nossas vidas
Rouba-nos um sorriso, um abraço,
E no embaraço de um momento,
Desaparecem no acaso, deixando-nos ao relento.

Pessoas que nos mostraram num segundo
O quanto belo poderia ser o mundo
E que, no entanto, se diluem nas estrelas
Mesmo que em suas certezas incertas
Fossem apenas promessas de reencontros.

Por que elas fogem, desaparecem, escondem-se?
Nossos corações e mentes não conseguem isso alcançar,
Pois tão frágil é a fé nas pessoas, nesse ato de acreditar,
Que somos iludidos nesse frívolo encantamento.

Então, começamos uma busca desconexa e de radar
Nas ruas, praças, baladas,  mercados e bares
Procurando em cada olhar, o olhar de encanto
Que nos propiciou fugazes momentos de felicidades.

Percebemos que a perenidade do encontro
É mera projeção de nossa mente sedenta
De minutos de prazer, carinho, amizade,

Marcados pela sensação do eterno enquanto dure.

domingo, 13 de julho de 2014

Os ensinamentos da Copa

A Copa do Mundo do Brasil chega a seu fim, entre vitórias e uma fatídica derrota, ficou a certeza de que o país tem condições sim de sediar grandes eventos, mas é preciso se preparar seus atletas/elencos de uma forma melhor para não ser vexatória sua atuação. Muito mais que estádios, acessos e aeroportos, é preciso dar condições de preparação técnica para saber vencer a ansiedade, a adversidade e obter grandes resultados.
O povo brasileiro, de certa forma, deu sua contribuição acreditando num sonho, recebendo bem os turistas, incentivando seus atletas. Ele fez a sua parte, porém todos esperavam mais.  Todos queriam ver brilhar a seleção e a derrota para a Alemanha deixa uma reflexão de que algo está errado no futebol brasileiro e que outras seleções se aperfeiçoaram e a nossa ficou aquém do desejado. O que parecia ser a melhor de todas as copas, para os brasileiros foi a pior de todas as participações.
Mas a vida segue. O trabalho continua. A rotina vai tomando conta de nossas vidas e a gente se esquece dessa triste partida, visto que a vida é feita de vitórias e derrotas em todos os sentidos. Daqui a pouco nossos olhares se voltarão para os candidatos à presidência da República e às câmaras estaduais e federais; e o fiasco da seleção na semifinal vai ser reflexo nos votos.
Dentre tantos projetos essenciais para a população brasileira, é preciso fomentar a cultura, assim como o esporte, para obtermos melhores resultados em nossas participações em grandes eventos.  Ou até mesmo em pequenas ações municipais ou regionais, sempre com a qualidade que o espectador merece.
O protagonismo cultural
Na área artística, o Governo Federal tem o programa “Cultura Viva”, ele surgiu para fortalecer o protagonismo cultural na sociedade brasileira, valorizando as iniciativas artísticas de grupos e comunidade, e também ampliar os acessos aos meios de produção, circulação e fruição de bens e serviços culturais, e tem por base os Pontos, Pontinhos e Pontões de Cultural. Em todo o Brasil são mais de 3034 iniciativas conveniadas.
O Programa é financiado por recursos do Governo Federal e dos parceiros públicos e privados, por meio de convênios, bolsas ou prêmios concedidos através de chamamento público.
Seus objetivos são:
• Reconhecer iniciativas e entidades culturais;
• Fortalecer processos sociais e econômicos da cultura;
• Ampliar a produção, fruição e difusão culturais;
• Promover a autonomia da produção e circulação cultural;
• Promover intercâmbios estéticos e interculturais;
• Ampliar o número de espaços para atividades culturais;
• Estimular e fortalecer redes estéticas e sociais;
• Qualificar Agentes de Cultura como elementos estruturantes de uma política de base comunitária do Sistema Nacional de Cultura.
Pontos de Cultura

            No sul do Estado, somente duas cidades possuem Ponto de Cultura: Guaçuí e Cachoeiro de Itapemirim. Esta tem a Escola de Teatro “Darlene Glória”, funcionando no Círculo dos Operários, próximo a Casa dos Braga. Já em Guaçuí, o ponto é comandado pelo Grupo “Gota, Pó e Poeira”, com o Projeto “Guaçuí Em Cena”, tendo aula de teatro, dança e música. Tudo gratuitamente.  Essas ações já estão no terceiro ano, e tem conseguido formar atores e técnicos que já podem atuar no mercado de trabalho, como é o caso do espetáculo “A incrível história de um homem que vendeu sua alma ao diabo e quase perdeu seu grande amor”, que foi apresentado recentemente em Dores do Rio Preto.

sexta-feira, 4 de abril de 2014

A INTOLERÂNCIA NO TEATRO E DANÇA


Recentemente o espetáculo “Vem buscar-me que ainda sou teu”, de Carlos Alberto Soffredini, foi encenado nos palcos de Guaçuí e mostrou uma cena que era comum nos anos 70: uma solteirona (Dona Virgínia), encantada pelo teatro, explica a Aleluia Simões, dona do circo, porque não fazia teatro e a visão da família sobre quem faz teatro. Bom, não é preciso detalhar a classificação dada pela personagem aos profissionais da área, na concepção da época, no entanto ela acabou se rendendo a arte e fazendo parte daquela companhia ficcional.
Mas, passados 40 anos da obra escrita, por mais moderno que seja o novo milênio, algumas pessoas e instituições continuam com seu pensamento retrógrado, generalizando pessoas, discriminando profissões. Atores e bailarinos sofrem na boca do povo, que parece mais se preocupar com a vida alheia do que exercer o seu ofício, e pouco produz, principalmente se quem fala atua também na cultura ou está envolvido em determinadas religiões.
Há poucos dias, deparei-me com uma cartilha de determinada religião que proibia seus fieis de frequentarem teatro, pois é um “antro” de perdição. Também soube sobre opinião de determinada pessoa com certa influência na cidade, dizendo que era um absurdo que adolescentes fizessem aulas de teatro. Bom, o “pecado” pode estar em qualquer lugar, entre os membros de uma igreja ou em outras profissões, não poupando comerciantes, professores, escritores, advogados, engenheiros ou qualquer
pessoa que seja. Vive-se hoje uma era de pessoas com mentes mais abertas, capazes de enxergarem a igualdade dos gêneros, e as várias possibilidades de uniões e se Deus criou suas leis, criou também o livre arbítrio. Só ele pode julgar.
No entanto, o mais assustador sobre essas opiniões, é que muitas vezes vêm de apoiadores da cultura; pessoas que se dizem intelectuais e dentro de um ciclo artístico. Então, como a pessoa pode ocupar determinados assentos se são hipócritas e discriminadoras? A religião e a literatura foram feitas para unir, agregar, conscientizar e acolher e não julgar por seus próprios meios, sendo ela elemento desagregador. Ou então... é uma dor de cotovelo, usando a linguagem conotativa, por não ter alcançado outros patamares.
O Tratador de Estrelas
Seguindo a linha de que a literatura pode agregar e não separar, Wilma Belfort, escritora do Rio de Janeiro, produziu um belo texto para o jovem ator Fábio Aiolfi interpretar e que estreia nos palcos de Guaçuí. Sua fonte de inspiração foi o texto escrito há um pouco mais de 70 anos e o segundo livro mais lido no mundo, “O pequeno príncipe”, do escritor francês Exupèry. As belas mensagens e personagens do livro são condensadas no personagem Plínio que revisita sua vida e tenta buscar novos caminhos. Quem já leu a obra vai identificar sentimentos e ações na montagem, com referências de personagens como a flor, o geógrafo, o contador de estrelas, a raposa, a serpente, o acendedor e o aviador.

As apresentações acontecem em Guaçuí nos dias 05 e 06 de abril, às 20 horas, no Teatro Fernando Torres, e depois segue para o Rio de Janeiro, no Teatro Henriqueta Brieba, também às 20 horas, no dia 10 de abril.

quinta-feira, 27 de março de 2014

O TEATRO CAPIXABA EM ALTA

27 de março, Dia Mundial do Teatro. Ele foi criado em 1961, pelo Instituto Internacional do Teatro (ITI), data da inauguração do Teatro das Nações, em Paris, sendo uma forma de fazer refletir sobre essa arte e na sua importância no contexto histórico, afinal ele existe desde a era primitiva.
O marco principal do surgimento do teatro foi a reunião de um grupo de pessoas em torno de uma fogueira, para se aquecer do frio e ali contar os fatos ocorridos durante o dia. A representação existe desde os tempos primitivos, quando os homens imitavam os animais para contar aos outros como eles eram e o que faziam, se eram bravos, se atacavam, ou seja, era a necessidade de comunicação entre os homens, e isso se projetava em suas sombras.
As homenagens aos deuses também favoreceram o aparecimento do teatro. Na época das colheitas da uva, as pessoas faziam encenações em agradecimento ao deus Dionísio (deus do vinho), pela boa safra de uvas colhidas, assim, sacrificavam um bode, trazendo para a comemoração os primeiros indícios da tragédia.
Para comemorar o Dia do Teatro, a Federação Capixaba de Teatro realizou em Baixo Guandu, com apoio da Secretaria de Estado da Cultura, o VII Festival Capixaba de Teatro e lá reuniu grupos e companhias de todo o Espírito Santo, que mostraram desde performances a comédias e tragédias, em variadas linguagens. É um festival que renasce das cinzas.
A participação do Sul do Estado
Do Sul do Estado quatro montagens estiveram participando. De Cachoeiro,  o Grupo Ela de Teatro encenou “A tímida luz de velas”, texto de Milson Henriques – consagrado escritor capixaba, que mostra as mazelas de duas velhas senhoras recordando seu passado. Também de Cachoeiro, com parceira de Guaçuí, o Grupo de Teatro Anônimos encenou “A Culpa”, baseada na obra de Franz Kafka intitulada “Carta ao Pai”, na interpretação de Luiz Carlos Cardoso.
De Divino de São Lourenço, o Circo Teatro Capixaba levou para aquela cidade do norte do Estado o espetáculo de rua “Pé de que tem”, numa montagem que reúne cortejo, poesia, teatro de rua e manifestações populares. O espetáculo conta com interferências populares, assim como eram as procissões dionisíacas. Liderados por Willian e Ananda, a trupe puxou as atividades comemorativas do Dia Mundial do Teatro.
Guaçuí em cena
Em comemoração aos seus trinta anos, o Grupo “Gota, Pó e Poeira” levou àquele festival a montagem “A saga amorosa dos amantes Píramo e Tisbe”, numa adaptação livre da obra de Shakespeare. Foram duas sessões repletas de muito riso, que cativaram o público da cidade de Baixo Guandu, e muitos assistindo pela primeira vez a um espetáculo teatral. As sessões ocorreram dentro da sede da cidade, numa lona de circo, e outra no interior, na comunidade rural Km 14.

Ainda comemorando o Dia do Teatro, a companhia guaçuiense trocou de malas e figurinos e viajou para o Paraná onde encenam “Estórias de um povo de lá” e “Bumba meu boi”, até o dia 31 de março, nas mostras Fringe e ES EM CENA, dentro do Festival de Teatro de Curitiba, um dos mais importantes do país.

segunda-feira, 10 de março de 2014

O que fica do Carnaval

O carnaval chegou ao fim e a ressaca da quarta feira de cinzas foi a tônica nos ambientes de trabalho. Muitos reclamaram em voltar às atividades profissionais, logo após do almoço, para dar continuidade aos afazeres e projetos, mas a vida segue seu curso, e em ritmo acelerado como nas homenagens ao Senna na “Unidos da Tijuca”, campeã do carnaval carioca. E de outro lado, já em São Paulo, o sambódromo de lá parou em ritmo de procissão para edificar a fé com a “Mocidade Alegre”. Muitos gostariam ficar parados, descansando para a quinta-feira, no ritmo de quaresma.
Já em Guaçuí não houve escola vencedora, e sim a comunidade que viu renascer das cinzas o seu carnaval com escolas de samba. Os blocos se reuniram e trouxeram para avenida alas completas com baianas e passistas; ala de crianças; carros alegóricos; comissão de frente; mestre sala e porta bandeira; rainha e madrinha junto à bateria. E como reiniciar sempre é mais complicado, é um começo que pode gerar bons frutos, principalmente quando os foliões, além de vestirem as fantasias, colocarem mais empolgação e samba no pé, e brincar na avenida, principalmente inspirado naquele cordão que segue a escola no término do desfile. Mas isso já é para o próximo ano!
Como destaque teve o retorno de Geralda, antiga porta-bandeira de tradicionais escolas de samba de Guaçuí, como um dos pontos altos. Ela, com a elegância de sempre, soube conduzir o pavilhão da “Unidos” no desfile na Marechal Floriano. Outro bom momento foi a participação do Ballet Guaçuí na comissão de frente, sob o comando do professor Glheison Ricardo. Mesmo com pouco tempo de ensaio, já demonstram que criatividade não vai faltar se a proposta desse carnaval tiver continuidade.
Dia Internacional da Mulher
No dia 08 de março, em todo o mundo, é comemorado o Dia Internacional da Mulher, sendo uma reflexão sobre a luta de operárias que deram suas vidas em busca de conquistas profissionais. Nesse dia, em várias partes do país e de outros continentes, mulheres estarão sendo homenageadas por serem destaques em suas respectivas áreas. E é isso que a Câmara Municipal de Guaçuí se propôs a fazer, nesta data, em sessão solene, destacando senhoras que de uma forma ou outra contribuem para o desenvolvimento de nosso município. São mulheres guerreiras, dedicadas, generosas, competentes, líderes, que tornam a vida melhor para muitos de suas famílias ou do ambiente de trabalho.
E nessa reflexão como não se lembrar do exemplo de vida de Emiliana Emery, viúva e com sete filhos? Ela arregaçou as mangas, numa sociedade machista da época, e foi trabalhar em profissões que eram de domínio masculino. Foi padeira, alfaiata, hoteleira, doceira, entre tantas outras, e acabou se destacando na política, sendo uma das pioneiras no voto feminino no Brasil, partidária de imponentes vultos da história política do Espírito Santo e do Brasil. Essa é uma história que deve ser contada em salas de aula na Região do Caparaó, sem dúvida.
Parabéns, mulheres! Que a cada dia alcance mais o espaço merecido e que sejam mais que o cantado nas atuais melodias brasileiras, pois são esteios – cada vez mais – de suas famílias e de nossa sociedade.

terça-feira, 1 de outubro de 2013

Da poesia capixaba a Beatles

Conta a lenda que num reino não muito distante um rei foi proclamado pelo povo disse que tudo faria pela cultura. O rei deposto logo ironizou e disse que aquele rei só seria “da cultura” se fosse ela da área agrícola. Esperto, o novo rei reuniu seus conselheiros e logo ordenou que todas as obras interrompidas da área cultural fossem concluídas, e assim foi feito e sua majestade se tornou um benfeitor da cultura em seu reino.
Mas o que é cultura? Genericamente a cultura é todo aquele complexo que inclui o conhecimento, a arte, as crenças, a lei, a moral, os costumes e todos os hábitos e aptidões adquiridos pelo homem não somente em família, como também por fazer parte de uma sociedade como membro dela que é.
Por outro lado, na visão do rei deposto sobre o novo rei “cultivo da terra para a produção, e ainda hoje é conservado desta forma quando é referida à cultura da soja, à cultura do arroz etc. “, conceito esse vindo dos romanos com base na agricultura.
A cultura é também um mecanismo cumulativo porque as modificações trazidas por uma geração passam à geração seguinte, quando vai se transformando perdendo e incorporando outros aspetos  procurando assim melhorar a vivência das novas gerações.
No sábado, dia 14, após o recital poético de Markus Konká, no Teatro Fernando Torres, uma senhora me abordou no final do evento e confessou estar emocionada, isso porque relembrou o período em que o poeta Antônio Carneiro Ribeiro escrevia e declamava suas poesias, hábito cada vez menor entre as novas gerações Mas vi isso em Portugal, em Gaia, em julho, com entusiasmadas senhoras poetisas, ou modernamente, poetas. E foi emocionante. No entanto, a poesia está relegada a uma parcela menor, mesmo com tantas tentativas de sarais espalhados pelo Brasil.
E sobre essas transformações na cultura, como foi internamente a reação de jovens diante do universo de Beatles, a ser apresentado no dia 21, no Teatro Fernando Torres, em duas sessões? Fala-se que a banda inglesa é atemporal, porém as novas gerações estão ligadas às letras fáceis, de refrãos melancólicos ou com palavras de baixo calão; correu-se o risco de alguns torcessem o nariz. Entretanto, há uma leva de pessoas que tem adoração a esse grupo, que atravessa inúmeras gerações; então mesmo que alguém torcesse o nariz, o evento foi um sucesso.
E voltando ao teatro, o espetáculo guaçuiense “Estórias de um povo de lá” foi selecionado para o Projeto de Circulação da Secult e vai ser apresentado em seis cidades capixabas. Uma das melhores produções do Estado, pretende encantar ao público pela obra mítica e também atemporal de Guimarães Rosa. Em breve divulgaremos as cidades contempladas. E para fechar, estive no período de 19 a 22 de setembro no Piauí, acompanhando o Festival Nacional de Teatro da cidade de Floriano. Nosso estado esteve presente com a montagem “A Culpa”, adaptação do texto “Carta ao Pai”, de Kafka, com atuação de Luiz Carlos Cardoso (de Cachoeiro) e sonoplastia de Neuza de Souza (de Guaçuí). Um bonito trabalho do Grupo Anônimos de Teatro que foi aclamado pelo público.

Sendo a principal característica da cultura o mecanismo adaptativo que é a capacidade que os indivíduos têm de responder ao meio de acordo com mudança de hábitos, mais até que possivelmente uma evolução biológica, os trabalhos citados buscam uma evolução cultural. Evoé!

domingo, 29 de setembro de 2013

ANJO

O calor do teu corpo quando me abraça
Transpassa os limites do meu pensamento
E sedento quero mais que aquele
Simples carinho desse anjo que enlaça.

Seu jeito distante, mas tão presente
É paradoxo ente o sonho e a realidade,
Uma fenda nas estradas da paixão,
Do encantamento da saudade.

Nessa aridez que se principia no sertão,
Vou vendo a vegetação
Que segue à minha frente
Enquanto te sinto onírico...
 Sonho adormecido, ao meu lado.

Toques involuntários de pernas,  ombros e mãos,
São pequenos furtos que pratico
Na expectativa que despertes da viagem que fazes
E que me olhes mais
E que me tenhas no teu coração.

As estradas prosseguem
E sei que no fim dessa viagem
De calor, aridez e luz
Nos despediremos como  amigos
 Nos falaremos vez em quando
Para que não se perca no tempo

Os breves momentos roubados e intensos.

domingo, 15 de setembro de 2013

Um novo espaço para a cultura

Durante um tempo adiei a minha decisão de ter uma coluna semanal nesse jornal, pois faz alguns anos que deixei de lado minha veia de jornalista – embora não formado – para me dedicar mais intensamente ao teatro e ao magistério. Confesso que muita coisa mudou nesses anos, e o jornal que se faz hoje está muito à frente daquele que fiz até o início desse novo milênio, principalmente no tocante à política e à cultura. Sobre política pretendo não falar, embora todo ato de escrita é um ato político, pois incide sobre ele pensamentos, idéias e ideologias. Sobre cultura, arte, lazer e entretenimento, procurarei dar algumas pinceladas, principalmente porque temos bons equipamentos e manifestações artísticas na Região do Caparaó e nem sempre sabemos lhes dar o valor que merecem.
Moramos numa região rica em belezas naturais, de grandes talentos brotados de suas serras quer sejam na música, no teatro, nas artes plásticas ou na dança; haja vista a exportação de artistas para o Rio de Janeiro, São Paulo, Minas Gerais e Santa Catarina, e que brevemente poderão estampar as páginas de cadernos de cultura de grandes centros. E que surjam outros Ronilsons, Amandas, Nices e Joões em nosso celeiro cultural.
Mas nos concentremos aqui, agora... Este ano não tivemos o Festival de Música de Alegre, todavia tivemos em agosto o Festival Nacional de Teatro de Guaçuí, que pela repercussão nas redes sociais foi um grande sucesso. Entre atores estritamente de teatro, tivemos nomes televisivos como David Lucas (Orelha, de Malhação) e o ex-big brother, o capixaba Marcos. No entanto, já é passado e a organização já começa pensar em 2014.
Setembro está aí, trazendo a primavera, a festa das cidades de Dores do Rio Preto e de Guaçuí para entreter seus moradores. Também teremos importantes circulações culturais, como acontece hoje no Teatro Fernando Torres, às 20 horas, com o recital poético “Meus poetas... Minha Ilha”, com o ator Markus Konká, dentro de uma parceria com a Secretaria de Estado da Cultura – Secult-ES e com a Prefeitura de Guaçuí, com entrada franca. É um bom momento para os que supostamente amam a cultura, saírem de suas confortáveis cadeiras frente às tevês e prestigiar uma integração de literatura, teatro e música. Uma boa pedida também para professores e alunos, visto que conhecerão um pouco mais da literatura capixaba.

Por essa semana é só. Espero que curtam a coluna, compartilhem as informações, discutam e também deem sugestões. É mais um espaço que se abre para a divulgação de nossa cultura.

(Coluna semanal  "Cena Aberta" no Jornal Folha do Caparaó, aos sábados)

segunda-feira, 9 de setembro de 2013

Cortina Aberta

Tudo perdeu o sentido...
O figurino exposto na arara
O som saindo do aparelho
O foco marcando a cena.

Tudo perdeu a razão de ser...
O adesivo no chão marcando o palco
A cortina aberta esperando o ator.
A deixa do texto para a ação.

Tudo ganhou outra forma
Como a maquiagem aberta na pia
A luz do espelho ainda acesa
O cenário exposto ao léu.

Tudo tem outra razão de ser
Quando o eu é mais forte que o nós
Quando a vaidade supera o coletivo
Quando o pessoal vai além de um todo.

Quando o que faço mais importante
Quando o que fiz não interessa mais
Quando a arrogância minha ou sua
Destrói sonho que não satisfaz.

Sou eu na ponta de uma escada
Na escala de marionetes com elásticos
E as máscaras caem, sobressaem
A representar personagens de justiceiros.

Ou heróis e heroínas de lanças nas mãos
A punir os vilões, bandidos e troladores
Com seus pudores e verdades
Sem olhar o espelho das próprias mãos.

quinta-feira, 5 de setembro de 2013

SONETO DA VIDA


Compreender o vazio que no peito acolhe
Que tolhe os sonhos mais profundos
E fere a alma que vagueia pelos caminhos
Em busca de retirar os espinhos da dor.

Não entender que mãos estendidas
Saem feridas no trabalho e nas paixões
E transformam corações  até então aquecidos
Em adormecidos cubos de gelo pela ingratidão.

Perceber que o limite nos faz tão pequenos
E carentes de sermos amenos, como um barco
A seguir pelo lago, em busca de paz.

Fortalecer nossas entranhas tão estranhas
Para que nossas façanhas, mesmo que tão simples

Sejam revigoradas pelas nossas criações.